quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Como eu gostava de escrever assim

A forma simples e súbtil , um verdadeiro dom, com que alguns transformam as palavras em sentimento e nos tocam tão profundamente, sempre produziram em mim um efeito mágico e uma vontade de conseguir escrever assim.
Dou por mim a ler e a pensar... 'porque não sou capaz de escrever como ele, porque não me lembrei desta frase ou daquela?'.
Não se trata de inveja, é uma admiração profunda.

O meu 'comboio de corda' por vezes também 'gira, a entreter a razão'.

Aqui fica um exemplo, entre tantos e tão brilhantes que escreveu.


'O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.'


Fernando Pessoa in Presença , nº 36. Coimbra: Novembro 1932

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