A forma simples e súbtil , um verdadeiro dom, com que alguns transformam as palavras em sentimento e nos tocam tão profundamente, sempre produziram em mim um efeito mágico e uma vontade de conseguir escrever assim.
Dou por mim a ler e a pensar... 'porque não sou capaz de escrever como ele, porque não me lembrei desta frase ou daquela?'.
Não se trata de inveja, é uma admiração profunda.
O meu 'comboio de corda' por vezes também 'gira, a entreter a razão'.
Aqui fica um exemplo, entre tantos e tão brilhantes que escreveu.
'O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.'
Fernando Pessoa in Presença , nº 36. Coimbra: Novembro 1932
Sem comentários:
Enviar um comentário